20 Anos de Igreja Betesda

Nunca pronto, sempre em construção

Conta-se que um homem selava seu cavalo e guardava alguns mantimentos na mochila. A viagem se mostrava longa. Estava claro que a jornada, além de demorada, também seria árdua.

Um amigo se aproximou e lhe perguntou:
– Para onde você vai?

Sem levantar os olhos, ocupado com a tarefa, o homem respondeu:
– Vou para longe daqui.

O amigo insistiu em saber o destino. Mas o viajante retrucou:
– Vou para longe daqui.
– Sim, já entendi, você nos deixa. Só quero saber para onde você vai.
– Eu já lhe disse meu destino, querido amigo: vou para longe daqui.

Alguém já me aconselhou a não publicar conceitos, ainda frágeis, de minha espiritualidade. Segundo meu companheiro, ninguém tem o direito de retirar antigas certezas se não tiver outras para por no lugar. Acontece que meu destino é, como na parábola, apenas sair. Não preciso de uma teologia arrumadinha e coerente para me aventurar no sagrado. Se ainda não sei aonde minha fé me levará, dou-me por satisfeito com a saída. Mas sair do quê, de onde?

Saio dos limites da chamada “reta doutrina” do movimento evangélico. Há muito já deixei claro que a ética, os ideais e as premissas teológicas e políticas do movimento não me interessam. Mas, sobretudo, considero-me incomodado com a possibilidade de idolatrar a Deus.

Entendo que idolatria carrega inúmeros sentidos. Dois me perturbam. A essência de Deus, esteticamente, visível é uma idolatria. Um dos 10 mandamentos diz que não devemos fazer imagens de escultura. Trabalho também com a premissa de que um Deus compreensível, conceitualmente, não passa de um ídolo. A primeira ideia sobre a idolatria é sensorial e a segunda, racional.

Para mim, Deus não habita territórios colonizáveis e não é pessoa domesticável. A Bíblia, longe de ser um apanhado sistemático e linear sobre Deus, é caleidoscópia. Talvez caiba a metáfora de uma belíssima colcha de retalhos, com poesia, prosa, crônicas, mito, leis. Ela não pretende ser um apanhado lógico e coerente sobre o Mistério. Os judeus não construíam seus pensamentos como os gregos.

As Escrituras descrevem Deus, simultaneamente, como guerreiro e pacificador, rei e marido traído. Muitas narrativas falam dele como um senhor implacável. Em outras é um pastor misericordioso. Há textos em que Deus só cuida de um determinado clã. Em inúmeras ocasiões, ele se importa com todos os povos. Daí Mestre Eckhart dizer que Deus é o “Inominavável” porque é, igualmente, o “Todo-Nominável”. Tudo o que se disser sobre ele ainda é pouco, pouquíssimo. Deus não cabe em gaiolas. Ele é vento selvagem (embora eu prefira afirmar que é aragem suave).

A maior parte de minha vida já passou. Faltam-me poucos anos pela frente. Experimentei drama e alegria, tragédia e calmaria. As dores não determinam por si só a minha teopoesia. Olho em retrospectiva e também celebro a recordação feliz de momentos sagrados. Amarguei dores atrozes – minhas e de gente distante -; elas nublam os meus olhos de lágrimas. Sou infinitamente grato por momentos delicados e gentis. Minha fé carrega sofrimento e tem muita festa.

Não pretendo construir ideias inéditas, ou criar qualquer escola de pensamento. Sinto tão somente o desejo de expressar o que creio. Falo da minha experiência de viver. Cada instante se torna caro em minha espiritualidade. Se saio de territórios antigos, sei que ainda sou amador em desbravar mundos novos. Identifico-me com a parábola de G. K. Chesterton sobre certo inglês que calculou mal o percurso do seu barco. Depois de navegar por horas e horas, o tolo retornou ao mesmo ponto de onde partira. Achando que estava em outro país, ele elogiava, contente, a paisagem e os prédios que acabava de contemplar. Mal notava que eram os mesmos com que se habituara a ver.

Hoje, depois de muito orar, meditar e estudar aporto em terras já desbravadas. O mapa de minha viagem foi traçado por santos que me antecederam. Pessoas lindas chegaram antes de mim no porto que só agora descubro maravilhado. Padres, pastores, rabinos, teólogos, poetas, músicos e profetas escreveram com bem mais beleza o que só agora entendo e alcanço. Sinto-me privilegiado de navegar ao lado deles rumo ao Mistério; quanta honra.

Soli Deo Gloria

 

Fonte: Pr. Ricardo Gondim

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